5 anos de Australia: valeu a pena?


Em uma das listas de e-mail que participo com outros brasileiros de TI que moram na Austrália, uma das mais interessantes discussões que já tivemos foi justamente sobre o grande desafio e mudança que foi largar tudo no Brasil e tentar seguir carreira na Austrália.

O título da thread era "Valeu a pena?" e foram mais de 50 mensagens, com depoimentos bem distintos, alguns mais emocionados, outros apenas com um singelo porém hesitoso "sim, valeu" como resposta à pergunta original.

Apesar das semelhanças em todas as interessantíssimas repostas, deu pra ver mais ou menos que a maioria do pessoal se encaixa em um desses grupos:
  • Tem os que acham que não está valendo a pena -- minoria.
  • Tem os que ainda não tem certeza -- vivem há pouco tempo na Austrália ou não ainda conquistaram o que gostariam.
  • E tem os que tem 100% de certeza absoluta que valeu MUITO a pena. E eu orgulhosamente me incluo nesse grupo.
E já que não tem como responder a pergunta original sem contar um pouco da experiência de cada um na Austrália, aqui vão as coisas que justificam o meu porquê de estar no quarto grupo. E faço logo de cara a ressalva de que devo ser um dos poucos que veio sozinho, solteiro, sem filhos e obviamente minha experiência não cabe comparar à de quem veio como casal com ou sem filhos, situação onde muitos outros desafios foram enfrentados.

Primeiro ano

Não venho de família rica, bem pelo pelo contrário, mas depois de ralar muito no Brasil e de ter tido algumas experiências de trabalho no exterior -- o que eu chamo de um misto de competência e sorte por estar em empresas que me permitiram ter essas experiências -- pesquisei os processos de PR do Canadá, Inglaterra e Austrália e apliquei por conta própria pra cá.

Tomei a decisão de não usar um agente migratório por dois motivos básicos: achei toda informação que precisava na internet gratuitamente, e também não queria gastar os US$ 3.000,00 -- e nem poderia me dar ao luxo -- com algo que na minha cabeça era apenas um "despachante de luxo".

Os que me conhecem há mais tempo sabem da minha estratégia do Skype number. Comprei um número de telefone fixo local de Sydney no Skype pra poder receber ligações dos recruiters enquanto ainda estava no Brasil. Ficava acordado até 3 da manhã no Brasil -- 4 da tarde aqui. Tanto que foi de um desses contatos que surgiu a entrevista que me deu meu primeiro emprego aqui.

Com relativamente pouca grana -- trouxe o suficiente pra me segurar por apenas 6 meses aqui sem emprego -- e com ajuda de um grande amigo (aqui vai um obrigado para o meu amigo Giba), fui morar numa shared accommodation, dividindo um apartamento de dois quartos com mais 4 pessoas.

Segui mandando CVs e fazendo entrevistas. Três semanas depois eu começava no meu primeiro emprego ganhando um salário que nem me passava pela cabeça ganhar no Brasil antes de chegar a uma posição mais senior --lá pelos 35, 40 anos no mínimo.

Fui ter quarto e banheiro só meus dois meses depois, o que na minha cabeça naquela época era luxo. Passei o primeiro ano focado no trabalho, sem pensar muito em viagens ou lazer, apenas juntando grana para colocar outros planos mais ambiciosos em prática num futuro próximo.

Segundo ano

Já conseguia economizar líquido muito mais do que eu ganhava bruto no Brasil, e aí veio a primeira viagem pra Ásia. E foi aí que o travel bug me mordeu e eu me dei conta de uma coisa: fazer viagens fantásticas, para lugares maravilhosos com os quais eu nem sonhava quando vivia no Brasil era muito mais fácil e mais barato do que eu imaginava -- ainda comparando com Brasil. Passei a ter hobbies e fazer esportes que não fazia, frequentar mais a praia por poder morar perto da água, o que me aumentou ainda mais a qualidade de vida.

Já tinha conseguido comprar um carro legal, uma SUV com 2 anos de uso, que aqui na Austrália é tão comum e barato que é praticamente considerada um carro popular. Mas mesmo assim, não tinha como não pensar "quando eu conseguiria ter uma dessas no Brasil?"

E o ter não é nem nunca será o mais importante pra mim. O que importa de verdade é poder parar no sinal as 2:00 da manhã com a janela aberta. É poder esquecer o carro destravado na rua. É ter certeza que meu carro não vai quebrar pois não vou passar por cima de nenhuma cratera na estrada.

Com uma situação financeira bem mais estável e com uma boa grana guardada, resolvi relaxar e começar a aproveitar e viajar mais. Foi um aumento em qualidade de vida nunca sonhado antes na minha vida.

Comprei meu primeiro imóvel, por incrível que pareça, no meio da crise financeira que assolava o resto do mundo -- e que mal afetou a Austrália -- com algo aqui chamado de First Home Owners Grant, que é nada menos que um incentivo de A$ 14.000,00 que o Governo Federal concede, mais A$ 7.000,00 concedido pelo Governo de NSW em ajuda na aquisição do primeiro imóvel.

Terceiro ano

Com amizades mais sólidas com aqueles que sei que vão ficar aqui por tempo indeterminado, tomei a decisão -- talvez meio idiota ou egoísta -- de não me aproximar demais de quem estivesse aqui de passagem, justamente por ter tido grandes amizades partindo da Austrália sem volta por não poderem ou conseguirem ficar. Me aproximei mais ainda dos que ficaram, os conhecidos viraram amigos, os amigos viraram família. 

E como a Austrália também tem proporcionado a muitos deles ótimas condições por aqui, podemos fazer coisas como alugar uma super casa de praia na South Coast, como já fizemos, pra passar um feriadão e comemorar o aniversário dos meus melhores amigos.

Pude passar 30 dias na Tailândia com amigos daqui sem nos preocuparmos com nada. Pude ir duas vezes pra Europa. Pude morar na praia com vista pro mar da minha balcony e curtir um dia de sol fazendo um churrasco com meus amigos olhando para o mar.

Em momentos como esses, não tem como não se perguntar: "quando no Brasil... quando?"

Quarto ano

Primeira troca de emprego, avanço na carreira, mais grana, mais savings. Mais viagens, investimentos em mais imóveis, carro zero. Me tornei cidadão Australiano e apesar de saber que nem eu e nenhum de nós jamais será um Aussie de verdade -- somos e sempre seremos Brasileiros -- posso dizer sem hipocrisia nenhuma que hoje Sydney é mais casa pra mim do que Porto Alegre.

Claro que Porto Alegre é e vai ser sempre a minha terra natal amada e meus amigos de lá sempre serão meus amigos, mas com a família que formei aqui, e com tudo que compartilhei acima, simplesmente já não faz mais sentido nenhum pra mim voltar para o Brasil.

Enfim, valeu a pena? Nem preciso responder.

Comentários

  1. Ótimo post, obrigado por compartilhar, e continuemos na luta para chegar aí!

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    1. Valeu Douglas! É isso aí, persistência é a chave! Abraço e boa sorte!

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  2. Obrigada....gostaria muitoooo de morar ai...bjs juliana

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    1. Estarei indo ainda este ano ...vc tem face????

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    2. Obrigado pela visita ao blog Juliana! Estamos no Face sim: https://www.facebook.com/projetoaustralia :)

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  3. Estou querendo sair do Brasil, ouvi falar muito da Austrália, e estou começando a me organizar para que isso aconteça.
    minha situação é a seguinte:
    Sou formado em Educação Física, sou casado e tenho uma filhinha de 2 anos e não falo inglês.
    Queria uma dica, uma ajuda e como devo fazer ou o que começar a fazer para que isso aconteça sem surpresas desagradáveis.
    Agradeço desde já e parabéns pelas conquistas .

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    1. Fala Rafael, tudo bem? A Austrália sem dúvida é um ótimo destino para quem quer sair do Brasil, seja à passeio, para estudos ou mesmo para morar futuramente. No seu caso, a melhor opção seria você entrar em contato com alguma agência de intercâmbio na sua cidade pois eles podem te dar todos os detalhes de custos, recomendar quanto tempo ficar lá dependendo do seu objetivo e principalmente te ajudar com opções de cursos de inglês e acomodação.

      Um abraço e boa sorte!

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    2. Boa noite Wagner, você tem alguma agência de intercâmbio para recomendar?

      Abraço

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    3. Olá Luiz,

      Infelizmente não tenho como recomendar nenhuma agência de intercâmbio pois nunca usei nenhuma. Recomendaria você dar uma olhada na página "Brasileiros na Austrália" e "Brasileiros em Sydney" no Facebook que o pessoal lá pode te dizer quais agências são boas e quais não.

      Abraço!

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  4. Estou querendo sair do Brasil, ouvi falar muito da Austrália, e estou começando a me organizar para que isso aconteça.
    minha situação é a seguinte:
    Sou formado em Educação Física, sou casado e tenho uma filhinha de 2 anos e não falo inglês.
    Queria uma dica, uma ajuda e como devo fazer ou o que começar a fazer para que isso aconteça sem surpresas desagradáveis.
    Agradeço desde já e parabéns pelas conquistas .

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    1. Fala Rafael, tudo bem? A Austrália sem dúvida é um ótimo destino para quem quer sair do Brasil, seja à passeio, para estudos ou mesmo para morar futuramente. No seu caso, a melhor opção seria você entrar em contato com alguma agência de intercâmbio na sua cidade pois eles podem te dar todos os detalhes de custos, recomendar quanto tempo ficar lá dependendo do seu objetivo e principalmente te ajudar com opções de cursos de inglês e acomodação.

      Um abraço e boa sorte!

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  5. Oi Wagner,

    Gostei muito do Blog, eu e meu marido estamos querendo ir para a Australia. Na verdade ja até tentamos por meio de um agente, pagamos maior nota e não deu certo, só porque meu marido tirou 7 na Prova do IELTS e na epoca a nota minima era 8. Estamos querendo reiniciar o processo, meu marido tem todas as qualificacoes, é da area de TI, ele é programador, tem ingles avancado entre outras coisas. E como a nota minima do IELTS abaixou, penso que será mais facil. Porem, não estamos querendo usar mais um agente, porque vimos que não vale a pena. Queremos fazer como você fez, sozinhos. Mas estamos meio perdidos de como fazer sozinhos. Sera que você poderia nos dar tipo um guiazinho de como iniciar? Obrigada e parabens pelo blog. Ah meu marido ja morou por 8 meses ai na Australia e amou, estamos doidos para ir de vez!!!

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  6. Oi Wagner,

    Gostei muito do Blog, eu e meu marido estamos querendo ir para a Australia. Na verdade ja até tentamos por meio de um agente, pagamos maior nota e não deu certo, só porque meu marido tirou 7 na Prova do IELTS e na epoca a nota minima era 8. Estamos querendo reiniciar o processo, meu marido tem todas as qualificacoes, é da area de TI, ele é programador, tem ingles avancado entre outras coisas. E como a nota minima do IELTS abaixou, penso que será mais facil. Porem, não estamos querendo usar mais um agente, porque vimos que não vale a pena. Queremos fazer como você fez, sozinhos. Mas estamos meio perdidos de como fazer sozinhos. Sera que você poderia nos dar tipo um guiazinho de como iniciar? Obrigada e parabens pelo blog. Ah meu marido ja morou por 8 meses ai na Australia e amou, estamos doidos para ir de vez!!!

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  7. Olá, Wagner, tudo bem?

    Podemos estender a cidadania para mãe e irmãos depois que adquirirmos a nossa?

    Outra pergunta: sou formada em comunicação social aqui no Brasil. Sinto que não é uma boa carreira para tentar imigrar, então, quais carreiras são mais abertas a estrangeiros na australia?

    Muito obrigada

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    1. A área de saúde tem muitas vagas e poucos profissionais. Boa sorte!

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  8. Olá Wagner, tudo bom?? Cara, sua história é muito show de bola mesmo, é uma inspiração na verdade. Hoje estou no Brasil, provavelmente dentro de 2 a 4 meses estarei chegando por aí e foi muito bom poder compartilhar da sua experiencia. Trabalho com TI a quase 10 anos, sou formado a 2 anos em analise e desenvolvimento de sistemas, porém, minhas especialidades maiores são com infra-estrutura, mais especificamente help/service desk e manutenções em gerais. Eu imagino que minhas habilidades são bem menos requeridas do os profissionais de desenvolvimento, porém, eu acredito não ser impossível o tao sonhado emprego na área por aí. Estou indo pra aprimorar o inglês e se me adaptar bem e conseguir continuar por ai, gostaria de persistir até conseguir um emprego na área. Se você tiver algum feedback/conselho pra me dar eu ficaria feliz. Grande abraço e se tiver chance, faço questão de te pagar uma cervejinha quando chegar por aí! haha até mais.

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  9. Marcelo Bittencourt28 de junho de 2016 00:02

    Wagner, parabéns pela sua historia. Estou com 48 anos e trabalho a 16 com SAP, já fui ABAP, GP e Arquiteto. Estou pensando em ir para Austrália com esposa e filho de 3 anos. Qual sua opinião? Será que estou muito velhinho?
    Abraço,

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  10. Wagner parabens pelo teu blog e por tuas conquistas. Te conheço dos tempos da Dell na PUCRS, nos proximos meses estou indo para Sydney com a familia, e ler teus relatos sao reconfortantes...grande abs

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