Sobre o brasileiro morto em Sydney


Muitos de vocês já devem saber do caso do brasileiro de 21 anos que morreu aqui em Sydney, vítima do despreparo de alguns oficiais da NSW Police que não só confundiram o paulista com outra pessoa (que teria roubado um pacote de bolachas de uma loja de conveniências), mas também o matou através do uso abusivo, excessivo e inapropriado de tasers (arma de choque).

Caso você não tenha ouvido falar do caso, este link tem todas as notícias publicadas sobre o caso no site da Globo.

Update: semana passada o Profissão Repórter fez uma matéria muito boa sobre o caso. Veja o programa na íntegra aqui.

Independente de fazermos julgamentos pessoais ou não, ou do próprio fato do guri ter ou não roubado um biscoitos, ou mesmo de estar drogado ou bebado como algumas pessoas especulam, NADA, absolutamente NADA justifica a perda da vida de uma pessoa de 21 anos. NADA.

Como vi no Facebook, absurdos como “estou com a polícia”, “quem mandou correr?”, "devia estar fazendo coisa errada mesmo", etc, vem justamente de outros brasileiros que também moram na Austrália e que, da forma mais ignorante possível, expressam a estupidez de ser racistas e aversos ao próprio povo.
O que me perturba de certa forma no momento é imaginar como a polícia teria lidado com a mesma situação se o cara fosse Australiano.

E qual a causa-raiz do "incidente" (as autoridades locais e inclusive o Cônsul brasileiro preferem usar o tempo "incidente" ao invés de "crime")? DESPREPARO da polícia. Simples. Em uma discussão sobre o assunto com amigos, alguns argumentam que a Polícia daqui é muito "educada e bem preparada" quando abordam pessoas nas ruas ou motoristas nas blitz. Ora, abordar uma pessoa ou um motorista numa situação normal onde não há risco nenhum, onde não está ocorrendo uma perseguição ou em qualquer outra situação de baixo/nenhum stress é fácil e não exige grandes treinamentos técnicos ou preparos psicológicos. São situações como a do brasileiro Roberto Laudisio que requerem sim preparo tanto técnico como psicológico ao abordar um "incidente" como tal.

E na minha opinião, essa foi a falha da Polícia. Falta de PREPARO ao lidar com uma situação de stress.

Não estou dizendo que todos os policiais são despreparados, com certeza não devem ser todos, mas os envolvidos sim, que aliás eram SEIS, sim, SEIS policiais, que estranhamente não conseguiram conter fisicamente UM jovem desarmado. Estes sim devem encarar as consequencias deste que não foi apenas um "incidente", e sim um CRIME, um homicidio.

Agora penso, porém, se a culpa é realmente só do despreparo dos officers envolvidos mesmo, ou se também é da NSW Police como um todo, pois mostraram na TV uns dias atrás que o "treinamento" que eles recebem é de 8 horas (pouco, suficiente, ou muito? não sei dizer), sendo que metade é teórico e metade é prático, e que cada officer dispara o taser apenas (agora sim, acho pouco) DUAS vezes durante o todo o treinamento.

Talvez o problema principal esteja aí: não é apenas dando teoria e prática pra um officer que ele já estará habilitado a usar o taser. Deveria haver algum outro tipo de treinamento/preparo psicológico (?) ou no mínimo avaliação pra saber se os officers que carregam tasers estão "on the same page" em relação ao critério para uso do taser.

No caso do guri que morreu, das duas uma: ou os officers simplesmente não sabiam dos critérios sob os quais o uso do taser é recomendado/aceito, ou sabiam apenas a teoria e simplesmente não tiveram preparo psicológico para fazer uma judgement call mais apropriada.

Comentários

  1. O Pablito tem feito um série de posts sobre isso, vale a pena conferir.

    Um deles é:
    http://pablitoaustralia.com/justica-roberto-laudisio/

    Outro:
    http://pablitoaustralia.com/representacao-caso-betinho/

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  2. Oi Artemis,

    Eu vi os textos do Pablo, muito bons também. É uma pena que o caso aparentemente já está entrando no esquecimento tanto em Sydney como no Brasil.

    Claro que a família e os amigos não vão esquecer e vão continuar cobrando as autoridades. A polícia segue se escondendo e desde o inicio se recusam a falar com a imprensa para passar mais informações.

    Minha maior dúvida segue sendo se a polícia teria usado a mesma abordagem/tratamento se o jovem fosse australiano.

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