3 meses de Austrália


Outubro foi o mês em que a segunda fase do meu projeto Austrália começou a tomar forma e virar realidade: a busca do primeiro emprego em Sydney na minha área, que vou tentar contar um pouco nesse post. A procura e o aluguel do apartamento -- assunto sobre o qual recebi algumas mensagens -- fica para um futuro post.

Planejamento

Procurar emprego, seja onde for, pode demorar dias, semanas ou até mesmo meses. E indo para um país novo, viver em uma cidade nova e entrar em um mercado novo, não seria diferente.

Sabendo que a conquista do primeiro emprego em Sydney poderia levar meses -- e o pessimismo era baseado em relatos de outros profissionais de TI que já viviam na Austrália -- o ponto principal do meu planejamento financeiro foi calcular quantos meses eu conseguiria me sustentar em Sydney apenas com o dinheiro que eu estava levando, e infelizmente o número ao qual cheguei não era alto: apenas 6 meses.

Obviamente o foto principal do primeiro emprego era continuar na área de TI, mas caso precisasse acioná-lo, meu plano B era trabalhar com uns amigos em um mercado em Sydney e continuar a busca de uma posição em TI.

Felizmente, como mencionei aqui no blog, fui bem em 4 das 3 entrevistas que fiz nas primeiras semanas e acabei recebendo 3 ofertas de emprego, o que excedeu bastante as minhas expectativas.

Minha expectativa era baixa -- esperava levar meses e não semanas -- justamente por relatos que li de pessoas que já estavam por aqui há tempo, e que o aconselhável era eu ficar preparado para conseguir o primeiro emprego la pelo segundo ou terceiro més de Austrália. Já segundo outros relatos um pouco mais pessimistas, a demora poderia durar atá 6 meses. Com isso em mente, já tinha me convencido que não poderia "turistar" muito por Sydney antes de arrumar um tão sonhado job em TI.

Custos

Eu já havia feito um pequeno levantamento de custo de vida por aqui -- pelo menos o meu custo de vida para os primeiros meses, sem passeios ou gastos turísticos, baladas com moderação, compras somente essenciais, aluguel, transporte e alimentação -- e calculei que com uns A$ 2.000,00 por mês daria para ficar tranquilo. Meu cálculo se confirmou após conversar com amigos brasileiros sobre o assunto.

Entrevistas e processos de seleção

Iniciada a saga dos contatos com agências de recrutamento e entrevistas a primeira coisa que me impressionou foi o profissionalismo e boa vontade -- pelo menos aparente -- dos recrutadores. Todos entenderam minha situação de skilled migrant recém chegado, me trataram muito bem e tiveram bastante paciência em explicar em detalhes sobre como o mercado funciona tanto para funcionários full time como para contractors.

Em geral, funciona assim:

Tu achas uma vaga em algum site de emprego ou no próprio site da agencia e aplicas para a vaga (“aplicar” significa enviar o currículo para aquela vaga).

A aplicação eh recebida pela agencia que publicou a vaga (normalmente eles não te dizem quem eh o cliente que esta contratando) e o teu currículo sera analisado por um analista de RH que conhece bem o skillset do pessoal de IT (então não adianta dizer que conhece Java no CV e tentar enrolar na hora de falar com esses caras, pois eles vão saber que tu estas mentindo).

Se a agencia gostar do teu currículo, eles vão te enviar o job description e vão te convidar para uma entrevista na agencia. Nesse momento, normalmente eles já revelam quem eh o cliente e dão mais detalhes sobre salario e beneficios.

Apos a entrevista na agencia, eles decidem se tu és ou não um bom candidato e se irão te encaminhar para a entrevista final com o cliente.

Em caso positivo, eles entram novamente em contato já passando os detalhes da entrevista a ser agendada (data, horário, local, pessoa que vai te entrevistar, etc).

Quando tu chegas nessa ultima etapa da entrevista com o cliente, tu já tens uma boa chance de ser contratado, pois as grandes agencias que atendem grandes empresas já há um bom tempo sabem se um candidato vai ou não ser aprovado pelo cliente (alem disso, eles não querem queimar o filme com o cliente encaminhando um candidato meia-boca).

Já no cliente, bom, ai a coisa pode variar um pouco. Muitos fazem apenas uma entrevista final e já repassam a resposta para a agencia. Outras iniciam um outro processinho de seleção interno, onde pode haver mais de uma entrevista. Em ambos os casos, assim que a agencia fica sabendo da resposta, eles te comunicam imediatamente.

Uma coisa que eu acho particularmente interessante no processo por aqui eh que, quando as agencias entram em contato contigo apos terem recebido sua application, elas sempre perguntam se tu ainda “tens interesse na vaga” e se tu “autorizas a agencia a enviar seu CV para o cliente”.

Coloquei entre aspas pois acho isso um tanto engraçado, ainda que muito profissional da parte deles. Ora, “tu ainda tens interesse na vaga”? E tu pensas: “Eh claro que sim, ora bolas! Eu quero começar a trabalhar hoje mesmo!”, mas o sentido disso eh saber se tu já não acertaste com outra empresa ou desististe da vaga por qualquer motivo. E sobre a tal “autorizacao de envio do CV”, normalmente eh solicitada por email e de maneira um pouco mais formal, para que eles tenham um registro teu dando a autorização e assim eles evitam problemas com quebra de privacidade.

No Brasil, tu não tens a minima ideia de quem pode ou não ter uma copia do seu CV. Ate hoje eu recebo uns emails para-quedistas de empresas de RH do Sul e de SP oferecendo vagas e perguntando se eu tenho interesse em participar de processos de seleção... E eu sempre me pergunto: “Como diabos eles tem o meu CV se eu nunca ouvi falar dessa gente?”... Aqui não rola isso, pois há toda uma preocupação com o tema “privacidade da informacao”, e isso eh levado muito a serio.

Agencias de RH

Voltando as agencias, claro que existem as grandes e as pequenas... As grandes normalmente são super bem organizadas, com departamentos específicos e gente especializada para cada área do mercado.

Muitas das grandes estão focadas em apenas um segmento de mercado, como industria ou IT.

Já as pequenas, normalmente atuam sem foco em uma área especifica (alias, com foco em “todas as areas”, e por isso acabam não atendendo bem nem os candidatos e nem as empresas, como acontece com frequência no Brasil), mas o “bom” eh que essas agencias menores acabam não sendo escolhidas pelas grandes empresas para conduzir os processos de seleção.

Já nas agencias grandes, o candidato eh tratado quase que como rei. A maioria delas possui grandes escritórios em altos andares na City, com vistas privilegiadas para alguma das lindas harbours de Sydney. Eh mesmo de impressionar o índio.

Buscando as melhores vagas

Depois de aplicar para trocentas vagas, as primeiras entrevistas que surgiram foram através da Genesis IT, Talent International e Paxus, todas focadas em IT e que estão entre as maiores recrutadoras para IT na Austrália. Na media, o tratamento recebido, numa escala de 0 a 10, foi nota 11.

Bom, voltando as vagas, como mencionei em um post anterior, nas minhas 2 ultimas semanas no Brasil, eu ficava acordado ate as 3h da madrugada durante a semana (4h da tarde no horario da Australia), para poder receber ligações no SkypeIn (comprei um numero local de Sydney, assim as agencias poderiam fazer ligações locais ao invés de internacionais). E valeu muito a pena, pois o retorno foi muito bom, tanto que a vaga para a qual fui contratado teve o processo de selecao iniciado quando eu ainda estava no Brasil.

A primeira vaga que apareceu foi atraves da Genesis e eu ainda estava em Porto Alegre. Era para uma posicao permanente como Systems Analyst (com perfil mais tecnico) na PepsiCo Australia. Os pros eram: salario um pouco acima da media de mercado; vaga permanente; estabilidade; beneficios aos montes; boas chances de carreira; Os cons eram: o local de trabalho era longe de onde moro (Chatswood, ao norte de Sydney, o que daria de 45m in a 1 hora de onibus); uma das minhas atividades principais seria testar integracao de aplicacoes e eventualmente, teria que meter a mao na massa em codigo (nada de errado com isso, muito pelo contrario ,afinal eu venho da “javaland” e ainda adoro desenvolvimento e arquitetura, porem eu estou seguindo meu plano pessoal de carreira, e queria algo similar ao que eu vinha fazendo nos ultimos anos na E-Core, onde cresci bastante profissionalmente).

A segunda foi atraves da Talent International e a posicao era Data & Systems Analyst numa tal de CSC. Em principio, eu pensei: “Po, trabalhar na Pepsi iria ser show, empresa grande, conhecida, salario razoavel... Agora trabalhar numa desconhecida, essa tal de CSC, hmm, nao sei nao”... Ate que fui dar uma olhadinha no pai-google e qual nao foi a minha surpresa em descobrir que a “tal de CSC” eh uma das maiores integradoras e provedoras de outsourcing do mundo, competindo com a IBM em nivel global e que tem mais de 91.000 funcionarios em mais de 80 paises. Seu valor atual de mercado eh “apenas” $ 17 bilhoes. “Glup”. Licao aprendida: jamais subestime uma empresa somente pelo fato de ela nao estar presente no Brasil ou so porque tu nunca ouviste falar dela. Pros: empresa gigante, possibilidade ser alocado em diferentes projetos ao longo do tempo (mais experiencia), trabalhar numa gigante do mercado de IT, treinamentos e plano de carreira inclusive para contractors; Cons: salario um pouco abaixo da media de mercado; posicao de contractor por apenas 3 meses (renovavel por mais 3 ou 6); local de trabalho em North Ryde (mais longe ainda do que Chatswood, mais de 1h de bus).

A terceira foi pela Paxus e a vaga era Business Systems Analyst no RTA. Vale mencionar que, das 3 notas 11 que atribui, a Paxus mereceu uma estrelinha a mais. Ja parei pra pensar e ainda nao sei ao certo o que me fez ficar com uma impressao tao boa deles...

Acho que os motivos principais foram dois: (1) a pessoa que conduziu meu processo do inicio ao fim tambem eh imigrante e pareceu reconhecer e se solidarizar com a dificuldade que o imigrante recem-chegado enfrenta ao buscar o primeiro emprego. Ela veio do Japao ha 6 anos atras e hoje eh uma orgulhosa cidada australiana; (2) quando conversavamos eu, ela e a Account Manager que atende o RTA, me chamou a atencao que a conversa em certo ponto se tornou menos formal, quase um bate-papo onde elas queria saber qual era a minha historia, como eu vim parar aqui, como foi o processo pra conseguir o PR do outro lado do mundo... Enfim, eu senti que elas realmente queriam entender a minha historia e me ajudar da melhor forma possivel. Fiquei surpreso e muito feliz com a essa abordagem mais humana da Paxus, em contraste ao approach mais formal e frio, ainda que extremamente profissional, das outras agencias.

No fim das contas, a vaga no RTA foi a que me pareceu ter o melhor custo-beneficio e eh onde estou trabalhando desde 01/10. A job description casou bem com o que eu procurava; o salario eh algo que ate hoje eu nao acredito direito (bem acima da media do mercado, talvez por ser um orgao do Governo do Estado); a localizacao so seria melhor se fosse na City mesmo, pois trabalho em Redfern, que fica a 2 estacoes de Town Hall (fico uns 7 minutos dentro do trem e caminho mais 5 minutos da estacao de Redfern ate o Australian Technology Park); temos times independentes de desenvolvimento, teste, requisitos e integracao (semelhante a Dell, porem com o time de requisitos fazendo parte da equipe de Application Development); estou alocado em 2 projetos diferentes e ainda assim tenho tempo pra fazer minhas coisas durante o expediente. Enfim, tem mais um monte de coisas que eu gosto aqui, mas eu deixo pra contar com mais detalhes em outro post.

Mas afinal, o que eh RTA?

RTA significa Roads and Traffic Authority e eh uma mistura de EPTC + Detran + Secretaria Estadual de Transportes daqui. Aqui na Australia, cada Estado tem o seu proprio orgao de transito, e todos respondem para o Ministerio de Transportes. New South Wales tem o RTA, Victoria tem o VicRoads, e assim por diante.

Nao sei sobre os outros departamentos do Governo de NSW, mas aparentemente, cada um tem o seu IT de forma separada (o RTA tem o Traffic Systems Branch, que eh onde trabalho), o que eh diferente do RS, onde temos a PROCERGS que atende (teoricamente) todo o Estado.

Contractor x Permanent

Ahh, em tempo: queria deixar claro que nao vejo nada de mal em ser contractor, muito pelo contrario, a minha preferencia pessoal eh continuar sendo contractor. O salario quase sempre eh substancialmente melhor e em alguns lugares os contractors tem quase as mesmas regalias do quem eh staff.

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