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Colocando um sonho em prática


Eu sabia que queria algo novo, diferente, que me desse aquele frio na barriga que a gente sente quando faz uma mudança grande na vida, uma mudança que a gente quer muito.

Já tinha me formado em uma boa universidade e trabalhava no Centro de Desenvolvimento de Software da Dell, um ótimo para trabalhar. Vislumbrava como um próximo objetivo fazer um Mestrado na minha área, talvez com um pé em gestão e outro em tecnologia, não tinha certeza se queria assumir um compromisso longo assim, de 2 ou mais anos. Só tinha a certeza que iria encarar um Mestrado com certeza, mais cedo ou mais tarde.

Em empresas de tecnologia como a Dell, a maioria dos projetos de software são de nível global e temos que interagir com pessoas de vários países -- nesse caso, eram mais americanos, indianos e chineses -- e sempre acabamos aprendendo um pouco sobre a cultura desses colegas distantes e melhorando o nível de inglês ao mesmo tempo.

Foi então que surgiu uma oportunidade real de ter minha primeira experiência de trabalho no exterior pela Dell, e confesso que fiquei muito empolgado com a idéia, mas nada estava confirmado ainda. E foi a partir daí que comecei a sonhar sobre como seria viver e trabalhar no exterior, as possíveis alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, descobertas e saudades.

Eu tinha 24 anos e não tinha certeza -- e nem me preocupava tanto com isso na época -- sobre os próximos passos que deveria tomar na minha carreira. Poderia continuar focado na área tecnica ou mover progressivamente para alguam área de negócios ou mesmo gestão de projetos -- e tinha alguma idéia do esforço e tempo que cada um levaria. Porém a idéia de tentar carreira no exterior nunca me saiu da cabeça, como aquela pulguinha atrás da orelha que te morde todas as noites antes de dormir.

Quando pensava nisso, naquela época, a opção mais óbvia me parecia ser os Estados Unidos, simplesmente pelo fato de já estar trabalhando em uma empresa de lá. Inglaterra e Canadá também pareciam ser opções interessantes, mas a verdade é que eu não sabia nada sobre como seria morar e trabalhar nesses dois países.

Sempre gostei de conversar muito sobre esse tipo de assunto com colegas da Dell e descobri que eu não era o único que buscava uma chance de mover permanentemente para os Estados Unidos pela empresa. Ouvi histórias sobre gente que tentou ir de forma permanente, mas ao receber um não como resposta, saiu da empresa. Teve também quem resolveu quebrar os pratos com a gerência do Brasil e tentar uma vaga diretamente nos Estados Unidos... Enfim, o fato é que parecia ser realmente difícil fazer isso acontecer pelos canais apropriados dentro da empresa.

Oportunidade

Em setembro de 2006 veio então a chance de ir a trabalho para os Estados Unidos e, entre trabalho em Austin e turismo em Nova York, a experiência toda só me fez confirmar que era aquilo mesmo que eu queria para o meu futuro. E tinha certeza que um projeto temporário de alguns meses, ou mesmo uns anos, não seria suficiente. Eu não queria data de volta marcada, nem um visto limitado. Eu queria uma imersão total em outra cultura, respirar outros ares, um a nova vida. Mas não tinha certeza se seria nos States e nem pela Dell.

A experiência em Austin foi maravilhosa em todos os aspectos, sem dúvida, mas voltei para o Brasil com aquele gosto bem claro de "quero mais". Eu queria poder fazer grandes planos e ir de mala e cuia, de muda pro exterior, continuar trabalhando com o que gosto e iniciar outra vida com a qualidade e os horizontes que o Brasil nunca vai conseguir me dar.

Depois de muita pesquisa e conversa, entendi que o problema em realizar um movimento de carreira permanente para os Estados Unidos pela Dell -- assim como qualquer outra empresa global que usa serviços de uma filial ou fornecedor offshore -- é que não faz sentido nenhum para a empresa mover permanentemente um funcionário de um país como Brasil, Índia ou China para os Estados Unidos, já que a diferença de salários e outros custos do mesmo funcionário alocado nos Estados Unidos é muito grande.

É um ponto válido, afinal, se eu fosse acionista de uma empresa global, eu também não gostaria que os custos aumentassem em função de um funcionário do Brasil que quer ir os Estados Unidos, afinal ele custaria pelo 3 vezes ou mais.

E foi aí que eu decidi que era hora de tentar vôos maiores, de colocar o sonho em prática.

A Dell é um lugar ótimo para trabalhar, não há dúvidas sobre isso. Se tivesse a oportunidade de trabalhar novamente, eu iria com muito orgulho. Aprendi muito lá e sou muito grato pelo crescimento profissional e pessoal que tive lá, mas aquela idéia de viver e trabalhar no exterior permanentemente me fez voltar ao mercado e sondar outras empresas que pudessem me ajudar a realizar esse sonho.

Outra estrada

Foi então que, no início de 2007, acabei aceitando a oferta de outra empresa de software também em Porto Alegre, e que parecia também ser um ótimo lugar para trabalhar. Mas o grande atrativo dessa oferta não foi apenas o salário maior nem uma posição melhor, mas sim uma oportunidade concreta de ir trabalhr no exterior.

Assumi um novo papel, amadureci profissionalmente e aperfeiçoei ainda mais o inglês que já era fluente.

Foi então que nesta nova empresa, um colega me contou sobre um ex-funcionário que tinha ido para a Austrália viver e trabalhar permanentemente, mesmo sem ter um contrato de trabalho previamente acertado. Ou seja, era possível conseguir um visto que me permitiria entrar e ficar na Austrália permanentemente mesmo sem emprego.

De início, eu desconfiei da informação, então dei uma pesquisada rápida no Google para ver se achava algo concreto... e achei.

Depois de algumas horas perplexo por ter encontrado o que podia ser a chave para minha carreira no exterior, li naquela tarde tudo sobre o programa de Imigração Qualificada -- Skilled Migration -- no site do Departamento de Imigração Australiano e, apesar de não ter certeza se atendia todos os requisitos do programa, tomei nota da infinita lista de documentos necessários para fazer o pedido do visto e resolvi correr atrás.

E aquilo virou a prioridade da minha vida pelos meses seguintes.

Foram uns bons quilos de papel pra providenciar. Originais, cópias autenticadas em cartório e traduções juramentadas -- que não é um serviço barato, diga-se de passagem -- de vários documentos: RG, CPF, certificado de reservista militar, título eleitoral, certidão de nascimento, diploma de bacharelado, histórico com as notas das disciplinas do bacharelado...

Encarei também a saga que foi solicitar que as empresas onde trabalhei nos 6 anos anteriores concedecem as cartas em inglês comprovando que trabalhei em cada uma delas.

E teve ainda o curso de preparação para a prova do IELTS, mas essa foi uma das etapas mais legais de toda minha jornada para conseguir o visto permanente, pois conheci muita gente legal no curso, e alguns se tornaram grandes amigos.

Depois de ter a papelada toda reunida e de já terrecebido o resultado do IELTS, era hora de enviar tudo para a ACS -- Australian Computer Society -- que é o órgão Australiano que avalia os candidatos de TI que pretendem solicitar o visto premanente através do programa de imigração qualificada.

O tempo entre o envio da papelada e o recebimento da carta da ACS confirmando que atendo os requisitos de experiência e idioma, foram 3 longos meses de espera e ansiedade.

O próximo passo foi então enviar toda a papelada junto com a confirmação da ACS para o Departamento de Imigração e fazer a aplicação para o visto. Haviam vários tipos de vistos de residência, com regras e requisitos diferentes, e o meu era chamado de Subclass 136 - Independent.

Eis que finalmente, em 29 de maio de 2007, eu recebi um email da Imigração informando que meu processo havia sido aberto. E aí se iniciou uma looooooooonga espera.

Seis meses se passaram, nenhum contato da imigração sobre meu processo... fui perdendo a angústia pela espera.

Mestrado iniciado na UFRGS...
Muito trabalho e novas responsabilidades na empresa...
Um grande projeto de software em Buenos Aires...
Mestrado interrompido...
Sonhos, planos, e a volta daquela ansiedade.
Quando? Quando? Quando?

Plano B

Eu estava impaciente e decidi que precisava de um plano B.

Nessas idas e vindas entre Buenos Aires e Porto Alegre, resolvi que precisava ter uma conversa com um dos diretores da empresa onde trabalhava e sondar novamente o assunto oportunidades no exterior, pois eu já havia manifestado a minha vontade de uma transferência para a filial de Nova York ele havia respondido positivamente, era apenas questão de tempo.

NA conversa, abri o jogo e disse que tinha planos de ir para a Austrália, mas que por outro lado estava muito satisfeito na empresa e queria saber quais os próximos passos necessários para fazer a transferência para NY acontecer. Para minha surpresa, a recebi foi que a filial de NY estava indo muito bem e iria expandir em breve e precisar de mais gente por lá, e eu um candidato natural a mover para lá, o que me deixou super empolgado.

Eu trabalho melhor com datas, faço meus planos ao redor de datas chave, então sugeri colocarmos dia 1o de Setembro como prazo para nossa conversa sobre novas oportunidades para mim na filial de Nova York, e assim o fizemos.

Então agora é acalmar os nervos, sentar e esperar. Contagem regressiva para 1o de Setembro.

Seja com plano A ou plano B, eu vou realizar meu sonho, de uma forma ou de outra.

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